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O outro lado da moeda - Capítulo VII

segunda-feira, 28 de junho de 2010


Gosto de sentar nessa praia. Olho a imensidão azul e reflito sobre essa vida. O céu aqui ainda tem estrelas. Um pouco do que sobrou e ainda não foi destruído. Olhando os pingos cintilantes que curtinam a infinita escuridão, me pergunto se lá no alto existem outros seres nos observando. Outros planetas talvez, assistindo a destruição do nosso. Não respeitamos o nosso ecossistema. Não respeitamos a nós mesmos. Talvez lá em cima exista um lugar onde os moradores aprenderam a conviver em sociedade. Onde a fauna e a flora ainda esteja preservada e a população consiga viver em harmonia. Um lugar onde se respire um ar ainda puro e onde o mar não ameace as terras emersas. Sei que os nossos dias aqui estão contados. O calor, as catástrofes, as guerras. Tudo indica um fim trágico e melancólico pro nosso querido Planeta Lupus TR3 B. Talvez ainda dê tempo de encontrar salvação em uma galáxia distante.

O outro lado da moeda - Capítulo VI

terça-feira, 18 de maio de 2010

Demorou mas chegou!
A série mais comentada e elogiada do nosso blog está de volta com um capítulo inédito. Boa leitura!

Vingança.

Me chamo Albert Smith Pan Rudverson, mas você deve me conhecer por outro nome. Todos conhecem o final da minha história, mas deixe-me esclarecer o início de tudo. Tive a infância dos sonhos de todo garoto. Filhos de pai pescador, eu e meu irmão vivemos nossa infância em meio a praias incríveis, barcos, pescadores, piratas, sereias e turistas. Éramos como carne e unha, inseparáveis. Só não concordávamos em um único assunto: éramos apaixonados pela mesma garota. Ela morava em Londres, mas sempre vinha passar o verão no Sul com a família e os irmãos. Foi no meu aniversário de 12 anos que ganhei o primeiro beijo da minha amada. Foi sem dúvida o melhor dia da minha vida. Explodia felicidade. Claro que ver meu querido irmão de cara amarrada toda vez que estávamos juntos, me doía a alma. Ele não digeriu aquela escolha. Mudou comigo. Mudou com todos. Foi no início de um verão ensolarado que ele sumiu. Dizem que se envolveu com uma feiticeira da região. O fato é que quando voltou, trouxe consigo o tal feitiço. Coisa perigosa, magia das trevas mesmo. Demorei um certo tempo para perceber o efeito do ocorrido. Com os anos fui percebendo a grande mudança. Os anos passavam pra mim, mas de alguma forma meu irmão conseguira que ele, minha garota e os garotos de nossa turma de infância permanecessem sempre jovens. Imagine você o que é ver sua vida se esgotando, seu corpo envelhecendo a cada dia, e notar que as pessoas amadas a sua volta permanecem jovens, belas, divertidas, crianças. Eu não pude suportar. Entrei em depressão. Tentei suicídio algumas vezes. O máximo que consegui foi uma mão devorada por um velho crocodilo. Tomei de assalto o velho Jolly Roger, um barco pesqueiro que vivia ancorado no antigo porto, e sumi rumo a imensidão azul. Já fazem 40 anos que vivo em alto mar. Estou voltando pra casa. É hora de enfrentar o meu passado. Hoje sou um velho pirata cheio de sede por vingança. Preciso recuperar a minha Wendy, enfrentar meu velho irmão, quebrar o tal feitiço e reencontrar minha felicidade. Não tenho família, não tenho compaixão, não tenho medo. Tudo que tenho é um grande sentimento de vingança, meu velho e temido barco, minha tripulação e meu já enferrujado gancho.

Acompanhe os capítulos anteriores:

O outro lado da moeda - Episódio V

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cada ponto de vista, é a vista de um ponto.


O evangelho segundo Judas.

A verdade é que nunca perdi as minhas botas. Nem tão pouco traí o messias. Em verdade vos digo, que a mim coube a missão mais árdua. Foi numa tarde chuvosa que o grande mestre me chamou para uma conversa a sós. Me lembro de cada palavra pronunciada por ele naquele dia. Disse que tinha sido o escolhido entre os escolhidos. Que entre os seus doze fieis seguidores, me julgava o mais forte e fiel para enfrentar a missão mais dolorosa. Ele precisava morrer. Precisava dar o grande exemplo. Era sua missão. Só derramando o próprio sangue ele poderia limpar os pecados do mundo. Precisava que alguém o entregasse aos romanos para que a sua história tivesse o final previsto. A ressurreição só seria possível se ocorresse a morte.
Ele explicou tudo detalhadamente, me encorajou e me abençoou. Eu que jamais duvidaria do grande messias, cumpri tudo a risca. Procurei o exército romano, dei meu preço, recebi o dinheiro, sentei ao seu lado durante a ceia, dei meu beijo de despedida e logo depois repassei com precisão a hora e o local onde o encontrariam. Entreguei o homem mais sábio e bondoso de toda a Terra nas mãos sujas de soldados bárbaros. Sei que serei julgado e odiado por várias gerações. Ele mesmo disse que meu nome será sinônimo de falsidade e traição por mais de dois mil anos, mas que quando enfim ele retornar meu nome será limpo por toda a eternidade e meu lugar reservado ao seu lado na mesa dos bem aventurados.
Escrevo essas últimas palavras olhando o laço de corda que dará fim a minha vida. Morrerei nesse sábado cinzento juntamente com o meu mestre. A grande diferença é que amanha ele retornará da morte e completará a missão dada por seu pai. Fico honrado de ter contribuído com esse processo, mesmo que tenha que pagar um preço tão alto por isso. Quem sabe um dia alguém terá acesso a essas minhas últimas palavras, e assim como os outros onze apóstolos, eu também tenha espaço para contar a minha versão no livro sagrado.


O outro lado da moeda - Episódio IV

terça-feira, 23 de março de 2010

Cada ponto de vista, é a vista de um ponto.

O bruxo.


Tinha sede de provar. Sabia que a responsabilidade que pairava sobre seus ombros era enorme. O nome que levava era sem dúvida um grande fardo e uma enorme responsabilidade. Se sentia inseguro. Sabia que não podia errar. Ia para seu primeiro dia de aula em um ambiente totalmente novo, e era como se todo o castelo estivesse com os olhos colados nele. Assim se sentia. Apesar de toda a insegurança, dentro dele uma força o dizia que iria conseguir, que seria grande, que honraria o famoso sobrenome que carregava consigo. Desde pequeno sempre soube que era diferente dos outros garotos. Ele era especial, mas tinha os medos e as incertezas normais de um garoto de 11 anos. Quando entrou na locomotiva fumegante que levava os alunos ao castelo, sentiu-se como se estivesse indo pra casa. Foi ali que conheceu os dois amigos que levaria com ele pro resto da vida. Aquele era seu mundo. Ali gostaria de ficar para sempre, construir sua história, provar sua força. Levava consigo a imagem da sua amada mãe e de seu destemido pai. Sabia que ambos estariam orgulhosos de ver o filho chegar a mesma escola que os formou a muito tempo atrás. Quando os pequenos barcos guiados pelo desengonçado gigante parou na margem do castelo, seu coração se encheu de alegria. Enfim, chegara o dia tão esperado. Era tudo tão perfeito! Tinha o nome, tinha a ambição, tinha os amigos, estava em casa. Nada poderia tirar sua alegria naquele momento. Mal sabia ele das dificuldades e provações que viriam pelo caminho. Seriam sete anos difíceis que estariam por vir. Logo estava no fundo do grande salão, ouvindo o discurso do velho diretor e assistindo os colegas serem divididos nas quatro grandes casas. Mal teve tempo de observar o teto mágico e suas luzes cintilantes, quando o velho chapéu seletor gritou seu nome em alto e bom som: Draco Malfoy!


*Homenagem aos meus primos e amigos fãs de HP. Saudades das tardes e madrugadas de boa leitura.

Confira os episódios anterioes:
01 , 02 , 03

O outro lado da moeda - Episódio III

segunda-feira, 22 de março de 2010

Cada ponto de vista, é a vista de um ponto.

O dia D.

Me chamo Mohamed Atta. Você não conhece meu nome, mas conhecerá meu feito a partir de hoje. Escrevo do já movimentado aeroporto de Boston, antes mesmo das 6 da manha. Desde minha saudosa infância no subúrbio do Cairo, acho que minha vida vem se encaminhando para o dia de hoje. Durante todo esse tempo, vi parentes e amigos sendo mortos em guerras e ações americanas no oriente médio. Perdi muito, e nunca concordei com o esse tal modo americano de vida. Somente uma pessoa que já morou lá do outro lado do mundo, para me compreender. A soberba e a crueldade do exército americano que a muito vem destruindo meu ocidente e a terra de meus ancestrais me afronta. Os passos que estou prestes a executar vem sendo estudados minuciosamente à anos, pelas mentes mais brilhantes do mundo. Não sinto medo. Sei que a vida de muitos se perderão nesse processo, mas esse sangue todo lavará a alma do meu povo mutilado injustamente. Nosso feito entrará para história. Esse presidente que agora governa lá, tal como seu pai já governou um dia, sentirá por um dia o gosto que sentimos a décadas. Será a resposta do mundo árabe. Calculista, cruel e sorrateira, assim como deve ser. Tenho certeza que anos mais tarde eles dirão que tudo isso fora programado por eles, que nunca aceitarão o fato de terem sido enganados por nós, mas a verdade é que o nosso plano surpreenderá a todos. Sei que a retaliação será impiedosa. Mas nada muito maior do que tudo que já enfrentamos já a muito tempo. Hoje colocarei em prática todo o meu treinamento e os anos investidos na academia de aviação. Serei perfeito, exato, sublime, impecável. A todos que chorarão a minha morte, saibam que morrerei da forma mais honrosa que um guerreiro da Al-Qaeda pode morrer. Defrontando o eterno inimigo. Faço isso por vocês, amigos afeganistãos e tantas outras famílias dessa sofrida região. Hoje será o dia da grande resposta. O gigante americano cairá de joelhos.
Vou me despedindo. Já ouço a chamada do vôo 11 da American Airlines. É chegada a hora do grande show. Preciso cumprir minha missão e terminar com minha passagem nesse mundo de uma forma triunfal. Deixo aqui meu epitáfio em forma de carta, e saibam que quando minha aeronave atingir a grande torre, o sorriso da vitória dos injustiçados estampará o meu rosto.

Boston, 11 de setembro de 2001.


O outro lado da moeda - Episódio II

sexta-feira, 19 de março de 2010

Cada ponto de vista, é a vista de um ponto.

Um certo campeão.

  Me  lembro do meu presente de 6 anos. O mais especial que ganhei até hoje. Meu primeiro kart foi o meu melhor carro. E olha que já foram muitos. Lembro-me da primeira volta dentro de um carro de corrida. Logo soube que seria aquilo que queria fazer pro resto da minha vida. Passei por várias categorias e campeonatos no automobilismo. Brasileiro de Kart, Fórmula Opel, Fórmula 3, Fórmula 3000. Sempre quando diziam que eu ia parar, eu seguia em frente. Fui campeão e recordista por onde passei. Meus tempos eram impressionantes. Cheguei ao topo ainda jovem. Quando dei por mim já estava guiando um Fórmula 1. Meu sonho de criança que outrora parecia tão distante, tinha se tornado real. Comecei no ano de 1993. Corri com verdadeiras lendas do esporte. Pilotei as máquinas mais modernas do mundo. Me destaquei. Estive entre os grandes por mais tempo do que qualquer outro piloto na história da maior competição automobilística do mundo. Disputei títulos. Consagrei-me vice campeão do mundo de Fórmula 1 no ano em que o campeão fora ninguém menos que o maior piloto de todos os tempos. Sei que não corri em iguais condições que ele. Poderia tê-lo enfrentado de igual pra igual. Não me permitiram. Ainda me ocorre alguma lágrima ao lembrar daquela temporada.
Já se foram vários anos desde minha primeira volta de kart. Hoje guio mais pelo prazer que o cockpit me proporciona, do que por qualquer outra coisa. Faz alguns anos que venho me despedindo da minha grande paixão. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. A velocidade corre em minhas veias. Assim como corre nas do meu tão honrado pai. Encerrarei minha carreira com a certeza do dever cumprido, mas com duas grandes frustrações. Me faltou o mundial de pilotos, e me faltou o poder de conquistar o respeito do meu próprio país. Fiz muito. Sei disso. Fui onde poucos chegaram. Representei o Brasil pelos 4 cantos do planeta. Mas meu nome ainda é vinculado a piadinhas e pouco respeito. Doi. Mas os meus números estão aí. Amo meu pais, mas tenho vergonha do quanto meu povo ainda não sabe valorizar os seus próprios feitos.
A hora do adeus está chegando. A hora que levantarei nas manhãs de domingo e ligarei a tv como qualquer outro brasileiro apaixonado pela Fórmula 1. Nessa hora voltarei a ser apenas o Rubens.

O outro lado da moeda - Episódio I

quarta-feira, 17 de março de 2010

Cada ponto de vista, é a vista de um ponto.

O Lobo

       Era início de Primavera na Irlanda dos anos 60. A Floresta Mediterrânea ainda sofria as consequências de mais um inverno rigoroso. Os animais da Floresta tinham rumado para o sul. A fome era sua companheira. O velho e generoso lobo morava alí sozinho desde que sua velha companheira se foi. A estrada estadual passava a alguns quilômetros a noroeste, e a estradinha que passava até sua casa era escura e ja quase totalmente tomada pelas árvores. Apesar de ser um bom atalho para quem ia para o norte do continente, quase ninguém mais passava  por alí, exceto ela. E como ele a odiava. Quantas vezes aquela infeliz tinha lhe roubado o sono com aquela música insuportável? Quantas janelas quebradas com suas pedradas? Quantas vezes ela abriu a porta do seu viveiro deixando toda a sua reserva de comida fujir? Quantas vezes ela se esforçou pelo simples prazer de vê-lo infeliz? Só para sorrir enquanto sua dor nas costas o impedia de correr para socorrer suas travessuras.
Dessa vez seria diferente. Ele estava vacinado e tinha tomado suas precauções. Era o dia e o horário que ela sempre vinha o atormentar. No dia em questão, quando ela quebrou o seu vitral recém colocado, ele já estava longe dalí. Tinha aprendido onde a garota morava. Correu pra lá. Iria contar tudo a sua sua tutora antes da infeliz chegar em casa. A garota não tinha pais. Era criada pela avó. Uma senhora estúpida e arrogante, que defendia a neta em todas as suas baixarias. Mesmo sabendo disso, ele bateu a campainha. Antes mesmo da porta se abrir, o zunido do machado acertou seu pescoço. As últimas imagens que conseguiu ver foi de uma velha de olhos e dentes grandes, um caçador de machado ensanguentado e uma risonha garota de capuz vermelho. Morreu sem nunca ter feito mal a uma mosca. Lobo no quintal vizinho já é condenado sem julgamento.
Essa é a real história do velho lobo. O resto é conto de fadas.